quarta-feira, 31 de maio de 2023

A palavra é... ordem

 


O conceito de ordem, em latim ordinis, em inglês order, em francês orne, em espanhol órden, em italiano ordine, os senhores estão anotando? Isso é o que já diria o ordeiro Capitão Nascimento, personagem central do aclamado Tropa de Elite (José Padilha, 2007), em uma passagem que até lembra o eterno ensinamento do não menos famigerado Professor Girafales: “dizia eu que a aritmética…”. Vou retomar o raciocínio.

Dizia eu que o conceito de ordem é proveniente da improvável área de conhecimento da tecelagem ou tecelaria. Com efeito, o radical ord-, que é panromânico, conforme nos ensina Houaiss, e como pudemos comprovar nos exemplos acima (de tal sorte que eu nem saberia dizer por que causa, motivo, razão ou circunstância terá ido parar na língua inglesa, coisa que aparentemente não aconteceu em outras línguas anglo-saxônicas), tem seu significado mais primitivo relacionado à ordem dos fios em uma trama, conexo ao verbo ordire, urdir; por extensão, passou a significar “fila, fileira, alinhamento” (notem a palavra “linha” ali no meio, senhores; vou pedir isso na prova); e só então a “classe a que pertence um cidadão; ordem (sacerdotal); posto, ordem de batalha” (onde essa “ordem” ainda não é um comando, mas uma disposição, um arranjo, uma organização metódica). Do sentido mais primitivo decorre o de “série de acontecimentos ou fatos que se sucedem; sequência, sucessão” e, dos derivados, as noções de “procedimento, técnica ou meio de se realizar algo; método, processo”, de “obediência às normas; disciplina” e, por fim, a consequente “determinação de origem superior, de autoridade; mandado, prescrição, ordenação”. A explicação de Antenor Nascentes é a de que para “por em ordem” é preciso “exercer o mando”, donde, pois, o verbo ordenar no sentido de “mandar”. Em Portugal, ordenador é também o que no Brasil ficou conhecido como computador ou simplesmente PC (do inglês personal computer), talvez porque ele comanda, manda e desmanda, como informa Gilberto Gil na canção Cérebro Eletrônico, do álbum homônimo de 1969.

Apenas para ilustrar algumas dessas acepções, suponham os senhores que um determinado personagem é alinhado ao ideário de uma personalidade política influente: isso quer dizer que ele engrossa as fileiras dos seus seguidores. Por uma casualidade do destino, o político é eleito presidente de uma republiqueta, e, por uma espécie de ordenação, o personagem alcança o posto de braço direito, digo, de ajudante de ordens, passando de pronto a receber (e a cumprir) das tais (mesmo as mais estapafúrdias, mas quem sou eu para julgar), isto é, torna-se um subordinado (não preciso explicar o prefixo latino sub-, né?). Apenas para dar colorido à narrativa, suponham que o personagem em questão seja um militar; um tenente-coronel, digamos, ou qualquer coisa que o valha na hierarquia (do grego hierós, “sagrado” e arkhé, “comando, autoridade”). Nosso personagem estaria pronto para participar das mais diversas tramas (urdiduras), tais como adulterar cartões de vacinação, tentar desembargar regalos retidos em uma alfândega ou efetuar depósitos em dinheiro vivo na conta de uma primeira-dama bonitinha mas ordinária.

Pois sim, senhores, do mesmo radical ord- derivam as palavras ordinário, no sentido de “conforme à ordem, à regra; usual, costumado” e que mais tarde viraria “medíocre, vulgar; mesquinho, reles, inferior; indecente, obsceno” e mais um monte de sinônimos que vão daí pra baixo (afinal, como ensinou nossa eterna Santa Rita de Sampa, tudo vira bosta), e extraordinário, que é literalmente aquilo “que foge ao usual, fora do comum; excepcional, notável; fabuloso, inacreditável”, e por aí afora. Como dizia Carl Sagan, afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias; mas se o homem de ciência conhecesse o noticiário político brasileiro, saberia que para cumprir ordens esdrúxulas, quanto mais reles, melhor. Houaiss informa, ainda, que o latim ordinarius também designava um “escravo que vigiava e mandava nos outros escravos”. Não espantaria que, no nosso exemplo hipotético, o ajudante de ordens comandasse um ou outro esquema fora das regras estabelecidas, repassando a outros subordinados as ordens recebidas do seu superior imediato. Claro que ele não seria o primeiro nem o último a aprontar dessas e de outras mais, o que apenas me faz lembrar que “primeiro” é um numeral ordinal

O leitor atento terá observado que em francês o radical parece ter sofrido uma modificação. De fato, a síncope da sílaba di do latim hipotético or(di)nare teria sido a origem do verbo ornare, que, de acordo com Francisco Torrinha, significa “aprestar, preparar, aparelhar; equipar, guarnecer; embelecer, ornar, pentear os cabelos; dar lustre ou relevo a, distinguir, honrar; gabar, elogiar, louvar, exaltar”. A língua portuguesa herdou o verbo ornar e seus derivados, além do radical orn- em palavras como adorno e exornar, mas também suborno, que originalmente devia se referir a algum tipo de ornamentação feita em segredo, por debaixo dos panos; o tipo de coisa que, quando flagrada, costumava ser recebida com louvores do tipo “bonito, hem?!”.


quinta-feira, 20 de abril de 2023

A palavra é... joia

 


A anedota é antiga: o personagem, que não devia ser um cidadão comum, já que estes, na época, não frequentavam esse tipo de ambiente, encontra um parlamentar no aeroporto, empurrando um daqueles carrinhos de malas, e o cumprimenta: “Tudo jóia, deputado?”, ao que este responde: “Não, metade é roupa”. Apesar de velha, ou por isso mesmo, ela merece uma atualização (um update, como preferem os falantes do brasileiro castiço): “Tudo joia, presidente?” “Não, metade é dinheiro vivo”.

Note o leitor que na primeira versão da história a palavra ainda possuía acento agudo, que ela perdeu na última reforma ortográfica, com todos os riscos que isso lhe trouxe de ser rebaixada à “mulher do joio” e, assim, dar azo a mais alguma piada de baixo quilate. Antes que isso aconteça, comecemos por separar o joio do trigo: este, o Triticum aestivum, originário do Oriente Médio, é o cereal mais presente na alimentação humana desde a Antiguidade, é rico em amido e seu nome vem do latim triticum, derivado por sua vez de tritus, que significa “moído, triturado” e de onde nos vêm triturar e atritar. Quanto ao joio (Lolium temulentum), costuma crescer no meio das plantações de trigo, sendo inclusive chamado de “falso trigo”, dada a semelhança morfológica entre as duas espécies, pertencentes, ambas, à família das gramíneas. O que permite diferençá-las é que, na maturação dos frutos, as espiguetas do trigo adquirem coloração castanha e apontam para cima, enquanto o joio produz espiguetas mais delgadas e escuras, que tombam para o lado. Ou seja, só é possível distinguir uma da outra depois de uma certa fase de crescimento, e isso explica e justifica a parábola bíblica.

Favor não confundir o joio com o shoyu, o tradicional molho de soja japonês, cujo nome deriva do chinês shi-yu, composto de shi, “grãos salgados” e yu, “óleo”. Tampouco pense o leitor menos dotado de dons culinários que ele possa ser substituído pelo nosso corriqueiro óleo de soja, porque aí vai errar rude. Ainda sobre o joio, consta ser um narcótico devido a um fungo endófito que geralmente o infecta, e que produz toxinas e o alcaloide lolina, isolado pela primeira vez nessa planta, chamada lolium em latim. Por isso o “temulentus” do seu nome científico, que em latim quer dizer “bêbado”. O usuário deve ficar Ben 10, mesmo, capaz até de tentar passar por uma alfândega internacional sem declarar uma caixa de 16 milhões de reais no fundo da mala! Essa alfândega, a propósito, é outra daquelas palavrinhas árabes como alface, álcool, algodão, almôndega, alcova, alambique e alicate, introduzida na Península Ibérica durante o domínio islâmico. Sim, também os alvarás e os tão decantados algoritmos, esses que hoje servem mais para espalhar esse anglicismo terrível que atende pelo nome de fake news.

Mas voltemos ao assunto, porque a joia não tem nada quer ver com nada disso. A palavra, bem antes de chegar ao registro informal da nossa língua, nos veio do francês joyau, que já significava qualquer “objeto de matéria preciosa”. No francês antigo era joie, que, no moderno, significa alegria, o que aponta para o fato de elas serem formadas pelo mesmo radical. Não por acaso, “precioso” e “apreciar” são também parentes, derivadas do latim pretĭum, “preço, valor”. Não esqueçamos que “apreciar”, assim como “estimar”, tanto significam “ter apreço” quanto “avaliar, julgar”, ou seja, ponderar o valor de algo ou alguém. E “ponderar” nos vem do latim pondus, ponderis, que quer dizer “peso”. Já ouvi que as malas do ex-presidente valem seu peso em ouro. E em diamantes, claro, que são eternos. O mesmo já não se pode dizer do seu proprietário, que, se por acaso vale seu peso, sê-lo-á, por certo, em matéria bem menos nobre.

Já o diamante vem do latim vulgar diamas, diamantis, provável corruptela do latim clássico adămas, adamantis, por sua vez proveniente do grego adámas, adamantos, no sentido de “metal inalterável, duro”, também sinônimo de aço. Nem é preciso ser particularmente fã da Marvel Comics para ter lembrado agora do esqueleto de adamantium do Wolverine. A composição dessa liga metálica fabulosa não é conhecida, mas a origem do nome garanto que é essa aí. De resto, o termo grego também é empregado como adjetivo, no sentido de “inflexível, inquebrável”, assim como esperamos que seja a justiça brasileira em casos de contrabando de peças de joalheria por autoridades do alto escalão do poder executivo. Taca-lhe pau, Xandão!

segunda-feira, 20 de março de 2023

A palavra é... xeique

 



“Xeique”, forma registrada em todos os principais dicionários da língua portuguesa, é o mesmo que xeque ou sheik. Apesar de todas elas serem registradas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a última é considerada estrangeirismo. E, apesar de o Manual de Comunicação do Senado recomendar a forma “xeique”, os brasileiros, sempre entusiastas da língua de Shakespeare, que eles nunca leram, preferem “sheik”, mesmo. Assim é que a palavra ganhou as redes sociais para alcunhar a ex-primeira dama da nação, que já foi Micheque (no caso Queiroz), depois Micash (quando vieram à tona os gastos no cartão corporativo), e que agora é Miss Sheik, por conta das joias dadas por um tal Mohammed bin Salman, que, além de príncipe herdeiro da Arábia Saudita, é também vice-primeiro-ministro, ministro da Defesa e presidente do Conselho de Assuntos Econômicos e de Desenvolvimento. Não é pra qualquer um, não! Ele ainda é chefe da corte real da Casa de Saud, e não pensem que isso seja algum hospital ou plano de assistência médica: trata-se da dinastia no poder desde a criação do país, em 1932. Só faltou mesmo ser cambista de ingresso do circo romano. Ou, vá lá, do Estádio Internacional Rei Fahd, em Riade.

Há muita confusão entre termos como “emir”, “califa”, “sultão”, “vizir” e “xeique”, mas como os dicionários não parecem ser a melhor fonte para esclarecer essas nuances, será mais prudente não nos aprofundarmos nisso por aqui. Para nosso objetivo, basta notar que qualquer uma delas serviria, em princípio, e que a escolha por “xeique” foi apenas pelo aspecto sonoro que possibilita o jogo de palavras.

Como vimos, “xeique” e “xeque” significam a mesma coisa, e esse “xeque” não deve ser confundido com “cheque”, que vem do inglês to check, “inspecionar, conferir, verificar”, donde nos vem o simpático “checar”, e que, no nosso caso, se refere a outro escândalo da mesma família. “Xeque” é a palavra que designa o ataque ao rei no jogo de xadrez, e portanto é a mesma da expressão “xeque-mate”, do persa xāh māt, que quer dizer “o rei está morto”. A palavra vem do persa “xá”, denominação atribuída aos antigos monarcas iranianos, e também não deve ser confundida com “chá”, a qual, por sua vez, vem do mandarim. Também não façam associações espúrias entre a expressão persa e o nosso “chá mate”. Esse mate vem do espanhol mate, que no século XVI designava uma “cabaça vazia para vários usos domésticos, particularmente, para tomar erva-mate”, derivada por sua vez do quíchua mati, que quer dizer “cabacinha”. A erva em questão é a Ilex paraguariensis (ao pé da letra, o “azevinho paraguaio”), que Humberto Gessinger canta na canção de mesmo nome, no disco Simples de Coração, de 1995.

Ah, também não confundir o xeique ou o sheik com o shake de milk-shake. Essa já é uma bebida completamente outra, e vem, é claro, do inglês to shake, "agitar, sacudir, tremer", e por aí afora. Quanto ao nome Shakespeare, esse sim vem de shake speare, algo como o “brande lança”, provavelmente o apelido de algum antigo guerreiro bretão.

domingo, 28 de outubro de 2018

O Retorno de Saturno



Em It: A Coisa (adaptação para o cinema do livro homônimo de Stephen King) conhecemos a história de uma cidade do Maine que é atacada a cada 30 anos por um ser identificado apenas como “A Coisa” e apresentado na pele de um palhaço. Já em terras tupiniquins, a coisa parece atacar a cada 29 anos. Em 1960, chamou-se Jânio “Vassourinha” Quadros; em 1989, foi a vez do “Caçador de Marajás”, e agora é o próprio “Coiso”, com a mesma ascensão meteórica e (quase) inexplicável dos outros dois. Isso pode malassombrar o país, especialmente as regiões Norte e Nordeste, mas certamente não o estado de São Paulo, que parece nutrir uma simpatia por palhaços (ou não teria eleito Tiririca pela terceira vez, além de, pela primeira, uma dúzia de outras figuras tão ou mais histriônicas ― tudo leva a crer que uma delas chegará até ao governo do estado).

É sabido que nós, taurinos do primeiro decanato com ascendente em Capricórnio, não acreditamos em astrologia, mas são em horas como essa que chego a me perguntar se não haverá algum fundo de verdade no tal retorno de Saturno. É, diante do absurdo, a resposta mais irracional pode ser a que faz mais sentido.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Entenda a Diferença entre Voto Útil, Voto Nulo e Voto Contra



Todo mundo já conhece a diferença entre voto branco e voto nulo: são aqueles que não têm mais diferença nenhuma depois da invenção da urna eletrônica. Mas qual a diferença entre o voto nulo e o voto contra? É que o voto nulo também é um voto contra, mas é mais genérico: ele é contra todos os candidatos igualmente, enquanto que o voto contra, propriamente dito, é contra um candidato específico. Ele acontece quando a rejeição a um candidato A é muito maior que a rejeição a um candidato B. Ou C, ou D, tanto faz. Por isso é que faz muita diferença dizer que votou no Aécio ou que votou contra a Dilma. Ou vice-versa.
E quanto ao voto útil? Bom, voto útil é aquele em que você deixa de votar no candidato que você aprova, para votar em um que você rejeita mas que pode impedir a vitória de outro que você rejeita mais ainda. Quer dizer que o voto útil também é um voto contra, e o voto contra também é um tipo de voto útil. A principal diferença é que o voto útil é típico do primeiro turno, enquanto que o contra é típico do segundo. Ou, pelo menos, era assim até na última eleição. Agora estamos inaugurando uma prática nova: o voto contra já no primeiro turno.
Os dois primeiros colocados sofrem tanta rejeição que a maior parte dos seus votos são apenas votos contra o seu opositor, enquanto os candidatos com algum nível de aprovação ficam todos bem abaixo nas pesquisas. Os outros dois candidatos que ainda disputam uma vaga no segundo turno, a propósito, insistem em que só eles podem derrotar aqueles dois primeiros, ou seja, eles estão disputando justamente esses votos contra, de modo a garantir que, no final do processo, todo mundo fique decepcionado.
Que lição podemos tirar disso? A única que me ocorre é aquela que já foi ensinada por uma das mentes de maior expressão no nosso cenário político: “não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.” E teve gente que riu quando ela falou isso!

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O que a redação do Enem pode ensinar sobre os debates eleitorais


charge: Sampaio

Tenho notado que os candidatos à cadeira presidencial, pelo menos aqueles que podem participar dos debates, têm discursos muito parecidos com os das redações do Enem. O que é justificável, afinal eles também estão sendo julgados pela sua competência em compreender uma questão de caráter social, selecionar, relacionar, analisar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista, aplicar conceitos de várias áreas do conhecimento para desenvolver o tema, elaborar uma proposta de intervenção, que já devia estar pronta em todos os programas de governo, e de quebra ainda demonstrar um bom domínio da língua e dos mecanismos de argumentação. Pode parecer muito para um concluinte do Ensino Médio, mas é o mínimo que se espera de um presidente da República. Pensando nisso, resolvi avaliar as falas dos candidatos e atribuir-lhes uma nota, como mero exercício de raciocínio.

O Coronel Ciro é o típico redação nota 1.000. Articula perfeitamente bem a norma culta, como em todas as suas aparições públicas em que não usa impropérios (ou seja, em muito poucas). Vale lembrar que o uso de baixo calão é um critério de anulação, o que nos lembra o quanto é tênue a linha que separa a genialidade da loucura. O candidato apresenta um excelente domínio das estruturas sintáticas, enriquece as respostas com referências e um vasto repertório sociocultural, e sempre atende ao tema da questão e à tipologia textual. Parece até que ele nasceu dentro de um debate e nunca saiu de lá. Na história recente do país, só é comparável ao Dr. Meu Nome É Enéas Carneiro.

A Blablarina, o Picolé de Chuchu e o Boulos, que ainda não conseguiu merecer nem um apelido, são os casos prototípicos do nível 4. Apresentam poucos desvios gramaticais e um bom domínio da sintaxe, trazem algum repertório sociocultural, atêm-se geralmente ao tema e ao tipo dissertativo-argumentativo, mas não saem do senso comum, é sempre aquele mesmo discurso engessado. Ou mumificado, para ser mais exato.

Alguns candidatos que não puderam participar dos debates, a julgar pelas entrevistas, ficariam com um honroso nível 3, ao lado do Henrique Me Chama Que Eu Vou Meirelles. Argumentação previsível, domínio mediano do gênero dissertativo e nenhum repertório sociocultural legitimado. Sim, não vale citar dados que não tenham embasamento em nenhuma área do conhecimento. Provas indiciais, por enquanto, só servem para condenar lideranças políticas barbudas, digo, corruptas.

Álvaro Dias também estaria no mesmo nível, se não desse sempre a mesma resposta para todos os temas. Por esse tangenciamento do tema, ele não pode passar do nível 1 na competência II, o que baixa bastante sua nota final. Abre o olho, candidato!

A mesma coisa acontece com Jair Ele Não Bolsonaro, que, quando não zera por fuga ao tema, ainda é penalizado na competência V por desrespeito aos direitos humanos. Como logo este ano isso deixou de ser um critério de anulação, ele é capaz de ficar num nível 0, nesse quesito, e ter o restante da prova avaliado normalmente. Mas também não vai muito mais longe nas demais competências. Sua melhor pontuação talvez seja na competência I, ou seja, no domínio da norma culta, na qual ele ficaria com uma bela nota 2. Para que se tenha uma ideia mais clara do que isso representa, imagine que o nível 1 seja a Dilma falando, nos seus momentos mais inspirados, enquanto que o nível 0 seria algo assim como a Weslian Roriz.

Por fim, o Cabo Daciolo, mesmo falando em línguas estranhas, ainda teria sua redação avaliada normalmente, se produzir pelo menos sete linhas em língua vernácula. Porém ele tem sua redação zerada pela presença de “parte desconectada”, o que eu chamo carinhosamente de “situação miojo”. Isso, claro, quando não zera por fuga ao tema, que este ano passou a ter prevalência sobre o critério anterior. Não é nada que deponha contra a sua proficiência em geral. Ele apenas não foi avisado que discurso religioso anula a redação. Mas se o Boçalnato vencer o pleito, ele pode ficar tranquilo, porque o candidato garante que isso é parte da doutrinação comunista, e promete abolir essa norma nos próximos certames. Glória a Deus!




sexta-feira, 13 de abril de 2018

Pater Noster


Com atraso de alguns meses é que recebo a notícia da polêmica em torno da tradução francesa do Pai Nosso. Sim, estamos falando da famosa oração que o Senhor nos ensinou, e da qual, de acordo com um grupo de crítica bíblica do Instituto Westar, apenas duas palavras seriam inequivocamente autênticas: “pai” e “nosso”. Conclusão que também me é duvidosa, uma vez que na versão de Lucas (Lc 11,1-4) não aparece nem sequer a palavra “nosso”…
La polémique: é a ANSA quem nos informa que em dezembro do ano passado a Igreja Católica da França alterou o trecho “não nos submeteis à tentação” para “não nos deixeis cair em tentação”, que é como aprendemos por aqui. De acordo com a agência de notícias italiana, a versão anterior fora adotada em 1966, mas sempre teria sido criticada “por sugerir que Deus era o responsável por submeter as pessoas às tentações”.
Foi o próprio Jorge Mario Bergoglio, vulgo Papa Francisco, quem teria pontificado que aquela não era uma boa tradução, posto que “o que nos induz à tentação é o satanás”. Dada sua infalibilidade nesses assuntos, seria recomendável que ele instruísse os autores dos evangelhos, ou quem sabe o próprio Cristo, porque esse texto tão comprometedor está lá nos originais. Sim, eu conferi.
Confesso que mesmo antes de aprender a diferenciar as conjunções aditivas das adversativas, e lá se vão boas décadas, já achava estranha a construção “não nos deixeis cair em tentação, MAS livrai-nos do mal”. O que esse “mas” está fazendo aí, se não há nenhuma oposição entre “livrar do mal” e “não deixar cair em tentação”? Qual não foi minha surpresa quando, depois de aprender os primeiros rudimentos de latim e de grego, fui percorrer o texto original do evangelho de Mateus (Mt 6,13), e notei que a conjunção de fato estava lá! Mais grave: ao destrinchar o texto, nota-se que ela está corretamente aplicada.
Assim ouvi entoar o canto gregoriano, em bom latim: et ne nos inducas in temptationem, SED libera nos a malo. E assim consta na minha Kainḕ Diathêke (o original grego do Novo Testamento, presente de uma das minhas inesquecíveis professoras da língua helênica): kaì mḕ eisenénkeis hēmâs eis peirasmón, ALLÀ rhŷsai hēmâs apò toû ponēroû. O texto de Lucas não contém a segunda parte do fraseado, mas conjuga o mesmo verbo eisenenkeîn, que vem a ser a forma de aoristo segundo do verbo eisphérō, formado pela aglutinação da preposição eis e do verbo phérō, o que quer dizer literalmente “levar para” (tive de consultar isso, é claro, pois infelizmente a gramática grega não é assim tão inesquecível quanto seus professores…). O verbo latino é bem mais claro, pois além de ser composto pela preposição in e o verbo ducĕre, literalmente “conduzir para dentro”, é também o étimo do nosso verbo induzir. A se julgar confiável o testemunho dos evangelistas, o que Jesus pedia ao Pai era que não o induzisse em tentação.
Pois bem, aí está a tal polêmica. Levando-se em conta que Deus é onipotente,  não me parece haver uma diferença tããão grande assim entre induzir em tentação” e “deixar cair em tentação”, já que de uma forma ou de outra tudo depende da intervenção da Sua vontade soberana. Confesso que não compreendo como seria possível alguma coisa acontecer contra a vontade de Deus, se Ele, além de onipotente, é o criador de tudo quanto existe. E nem me venham com aquele papinho de “livre-arbítrio”, que isso não cola… Por uma simples questão de lógica, ou bem não existe nenhum criador onipotente e onisciente, ou tudo o que existe é exatamente como esse criador quer que seja, incluindo aí todas as opções que possamos porventura escolher com nosso hipotético “livre-arbítrio” e todas as consequências inevitáveis dessas escolhas. Como abraço tranquilamente a primeira hipótese, todo embate teológico, para mim, não passa de questiúncula. Mas se é polêmica o que o leitor deseja, eu posso oferecer uma melhor.

Ficar espiolhando minúcias textuais, tarefa a que são afeitos os literatos e, com maior consequência prática, os juristas, é coisa que pode facilmente nos levar a reverenciar a letra, que mata, em detrimento do espírito, que vivifica, como nos diz o apóstolo. Em outras palavras, é preciso diligência e discernimento para se extrair do texto aquilo que o seu autor quis dizer”, o que exige, entre outros cuidados, a análise, ainda que perfunctória, do seu contexto. Ocorre que, ao se fazer isso no evangelho que serve de base para o estabelecimento do texto, as palavras de Jesus parecem dizer uma coisa muito diferente do que a tradição eclesiástica estabeleceu. Alguém aí já leu os dois versículos que vêm imediatamente antes do Pai Nosso? Vou facilitar para o leitor, transcrevendo as palavras do Cristo:

7Nas vossas orações não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por falarem muito, serão atendidos. 8Não façais como eles, porque o Vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lhe pedirdes.”

Mas faz algum sentido que Jesus acabe de ensinar que é inútil repetir mecanicamente palavras memorizadas e logo em seguida se ponha a ensinar uma oração que deve ser memorizada e repetida mecanicamente per omnia sæcula sæculorum? Ora, para sermos razoáveis, o contexto nos obriga a entender que a prece que se seguiu foi um improviso, e não um texto para ser memorizado e repetido ipsis litteris. O que Jesus provavelmente tentou dizer é que se deveria imitar sua atitude, ou seja, conversar espontânea e intimamente com Deus, da mesma maneira como se conversaria com seu próprio pai. Dessa perspectiva, portanto, aqueles que vivem repetindo “a oração que o Senhor nos ensinou” devem ter entendido tudo errado.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Por Linhas Tortas – os Dez Mandamentos e a Condição Feminina

(publicado originalmente na Usina de Letras, em 25 de dezembro de 2006)

Segundo uma anedota contada por uma freira salesiana, inquirido acerca do número de mandamentos da lei de deus, Joãozinho (sempre ele!) replica: “Depende. Para os homens, são dez; para as mulheres, nove”. Sua confusão deve-se ao mandamento nono, aquele que proíbe de cobiçar a mulher do próximo. Apesar da ingenuidade de Joãozinho, que desconhece o fenômeno, cada vez mais comum, da homossexualidade feminina, o que ele realmente não sabia (e com ele muita gente, mesmo dentre os religiosos, que em geral não estudam os livros que consideram sagrados) é que esse mandamento só existe para os Católicos Romanos e para os Luteranos (e igrejas delas derivadas) By Mauro Cesar Bartolomeu.
Em Êxodo 20, 2-17 encontramos o texto integral dos mandamentos, que transcrevo da respeitada tradução de João Ferreira de Almeida:
2 Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. 3 Não terás outros deuses diante de mim. 4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. 5 Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. 6 E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos. 7 Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. 8 Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. 9 Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. 10 Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. 11 Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou. 12 Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. 13 Não matarás. 14 Não adulterarás. 15 Não furtarás. 16 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. 17 Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”
O último mandamento se refere à mulher como a qualquer outro bem material comerciável, ao lado do escravo e do animal, o que era bastante natural para Moisés e seu povo; tratava-se, portanto, de um mandamento contra a cobiça em geral, e não uma reiteração, desnecessária, do mandamento contra o adultério, expresso no versículo 14 By Mauro Cesar Bartolomeu.
Sabemos que os mandamentos são dez porque é o que nos dizem as próprias Escrituras (Ex 34,28; Dt 4,13; 10,4) mas a divisão do Decálogo (em grego, literalmente, algo como as “dez palavras”) não é um consenso entre as diferentes tradições confessionais. Os israelitas, por exemplo, consideram o segundo versículo como primeiro mandamento, interpretando-o como um preceito de crer na existência de seu deus. Os versículos 3 e seguintes são unidos para formar a segunda “palavra”. Já entre os cristãos há duas tradições distintas: uma, a dos padres gregos, considera como primeiro mandamento os versículos 2 e 3 e o segundo os versículos 4 a 6; a outra foi estabelecida por Santo Agostinho com base no Deuteronômio, e considera o versículo 2 apenas como uma “introdução” ao Decálogo, e entende os versículos 3 a 6 como um único mandamento. Para obter o número dez, então, Agostinho divide em dois o versículo 17, fazendo surgir uma ampliação desnecessária e arbitrária do mandamento contra o adultério: se, no mandamento anterior, proibia-se o relacionamento sexual com a mulher alheia, agora proíbe-se até mesmo o simples desejá-la. No que concerne aos vv. 3-7, os Reformados, juntamente com os Ortodoxos, seguindo a primeira tradição, entendem como um dos mandamentos a proibição ao culto das imagens, que os Católicos e os Luteranos, seguindo Santo Agostinho, unem ao primeiro, como mera extensão da ordem de não adorar a outro deus. O resultado disso é que a proibição da idolatria é diluída no contexto, perdendo sua importância e vindo a ser, mais tarde, simplesmente excluída das versões “didáticas” dos mandamentos By Mauro Cesar Bartolomeu.
Poderíamos pensar que Agostinho, ao distinguir a mulher dos bens materiais, colocando-a numa categoria à parte, estivesse tentando “resgatá-la” da sua vil condição de objeto, muito tempo antes que ela conquistasse sua emancipação social. Seja qual tenha sido sua boa intenção (o inferno está cheio delas), o que conseguiu foi o oposto disso; primeiro porque a simples existência do mandamento parece excluir a mulher do círculo dos observadores da lei mosaica (já que o mandamento, como observou Joãozinho, era voltado para a comunidade masculina), e segundo porque, ao contrário do que fez com o texto contra a idolatria, acabou dando um destaque excessivo ao pecado de desejá-la, acarretando que ela fosse por mais alguns séculos associada a tudo o que era considerado pecaminoso e diabólico (visão essa que remonta ao Gênesis, em que a mulher aparece como aquela que se deixa seduzir pelo discurso da serpente e que induz o homem à desobediência e à “queda original”). A provocação é oportuna, pois ainda hoje não são raros os defensores de que a mulher deva ser submissa ao marido e de que, se “Deus” a tratou nos mandamentos como objeto é porque é de “Sua Santa Vontade” que ela continue sendo tratada assim. Entre os propugnadores dessas idéias conto inúmeros padres e pastores. Mas, afinal, o que é que padre entende de mulher? Pelo menos não deveria… Quanto aos pastores, sua especialidade não deveria ser cuidar de rebanhos By Mauro Cesar Bartolomeu?
Exige-se, tradicionalmente, que um texto dissertativo apresente uma conclusão no seu parágrafo final. Tudo o que posso concluir, porém, de toda essa confusão é que ela não existiria se Yaweh tivesse simplesmente se lembrado de numerar os mandamentos… Mas que distração dos diabos By Mauro Cesar Bartolomeu!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A favor da vida

Para aquém dos aspectos éticos em que se desdobra a questão da descriminalização do aborto (que o STF, a propósito, não fez…), um detalhe que me desperta a curiosidade é o aspecto psicológico – ou psicopatológico – de quem se opõe ao aborto por princípio, mas que o admite em caso de violência sexual. Porque seus argumentos filosóficos, morais ou religiosos não passam, em última análise, de racionalizações para camuflar seu ressentimento, como gostava de dizer Nietzsche. O que faz com que o ressentido fique indignado diante da possibilidade de que uma mulher interrompa uma gestação indesejada é o julgamento de que ela deve ter tido um prazer inconsequente, que ele próprio gostaria de ter, mas que não se permite – pelo menos não sem uma boa dose de medo das suas consequências. Uma vez que não consegue dar livre brida a esse desejo, ele passa a exigir, em compensação, que todo mundo também o reprima, ou então que suporte suas consequências até o fim. E é por isso que ele julga que, uma vez descriminalizado o aborto, todo mundo ao seu redor deixará de se reprimir, coisa que ele vê como decadência moral. Sua atitude, na realidade, é apenas a confissão de que ele é reprimido demais para aderir a essa onda que ele acredita que iria suceder.

Não estou falando daqueles fundamentalistas que condenam o aborto em toda e qualquer circunstância, embora estes também devam sofrer da mesma síndrome, em estágio bem mais avançado. Também não falo dos meramente legalistas (os fundamentalistas do Direito), cuja opinião flutua de acordo com a lei vigente, e aceita o aborto de anencéfalos apenas porque, afinal, a lei permite, não permite? Estou falando exclusivamente daqueles que não admitem o “assassinato de um bebê no útero” – exceto em caso de estupro. Ora, uma vez que o feto é tão inocente num caso quanto no outro, o que mais pode justificar esse relativismo a não ser o simples fato de que no segundo caso se considera que a vítima não teve prazer? Para esses ressentidos, portanto, a proibição do aborto não é nada mais que uma punição que se deseja impor a toda mulher que se permitiu ter um prazer de cujas consequências ela decidiu fugir. E que muitas e muitas vezes eles mesmos também têm, mas depois ficam rezando para não ter acontecido “o pior”. E esse pavor os compele a condenar toda mulher (ou todo casal) que não teve a mesma sorte que eles. Tudo isso não passa de mero ressentimento, e não de alguma espécie de consideração humanitária, quer pelos pais, quer por esse ser que eles insistem que deve ser trazido ao mundo para, também ele, sofrer. Valhei-nos, São Nietzsche!

De minha parte, sou plenamente a favor da vida: cada um cuidando da sua e deixando a dos outros em paz.

sábado, 15 de outubro de 2016

Dia dos professores

Nesses tempos de “escola sem partido” (que defende que o professor em sala de aula não deve ter liberdade de expressão), em que os burocratas do Ministério da Educação e Cultura alardeiam nas redes sociais que é preciso “enxugar” as “regalias” dos professores e em que um juiz qualifica  como “pedagógica” a condenação de uma jornalista a pagar multa a um ministro do Supremo Tribunal Federal (por “abuso do direito à manifestação”), em que parece que todo o discurso sobre educação vem sofrendo um forte processo de bolsonarização, o que a classe docente tem para comemorar talvez seja menos suas conquistas do que a sua capacidade de resistência. Portanto parabéns, se você é dos que resistem.

domingo, 9 de outubro de 2016

Para o banco de questões do Enem



Primeiro, o governo da “Ponte para o Futuro” anuncia que irá congelar os investimentos em educação pelos próximos 20 anos, isso com base no orçamento já cheio de cortes do governo da “Pátria Educadora”. Depois, anuncia uma reforma do Ensino Médio que não parece de todo mal, em princípio, mas que não incide na qualificação nem no plano de carreira dos professores, e sobre a qual estes nem foram consultados. Agora, a Câmara decide abrir o pré-sal para as privatizações. Sim, aquele mesmo pré-sal que teria 75% dos royalties destinados à educação. Pergunta: qual o nível de escolaridade, nos padrões atuais, requerido para perceber que vai dar merda?

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Golpe

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Perguntar se o impeachment foi golpe ou não, é mais ou menos como perguntar “bolacha ou biscoito?” (Em tempo: é óbvio q é bolacha.)
O golpe de estado se caracteriza pela subversão da ordem constitucional. Quem diz isso não sou eu, é Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Para metade do país, houve subversão na atribuição de crime de responsabilidade à presidenta deposta. Para a outra metade, houve subversão no desmembramento da votação, que acabou por preservar a elegibilidade da presidenta deposta. E isso não exclui aqueles que, como eu, pensam que houve subversão em ambas as decisões. Então, uma coisa que não pode ser negada por ninguém é que houve um golpe de estado.
Mas se você se incomoda com a nomenclatura, proponho outra via de raciocínio: substitua-se a palavra “golpe” por, digamos, “sacanagem”. Agora, deixando de lado a insatisfação geral com os governos Dilma, perguntemo-nos: a aceitação do pedido de impeachment por mera retaliação do então presidente da Câmara foi muita ou pouca sacanagem? E quanto ao desmembramento do processo e às duas votações discrepantes levadas a cabo por parlamentares evidentemente de rabo preso com o que há de mais sujo na política nacional, foi muita ou pouca sacanagem? Foi muita ou pouca sacanagem a aprovação da lei que autoriza as “pedaladas” imediatamente após o afastamento definitivo da presidenta? Respondidas essas questões, podemos retraduzir: o impeachment foi muito golpe ou pouco golpe?

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Malakói (grego) e a pergunta que todo cristão deveria se fazer

Recentemente, um debate entre um polêmico deputado da bancada evangélica e um famoso youtuber teen reacendeu uma discussão teológica, linguística e cultural: que significado teria, na Primeira Carta aos Coríntios, o termo malakói? De mais a mais, a repercussão rendeu algumas boas respostas, tanto de canais confiáveis como o do Pirula, passando por canais não tão confiáveis assim, e culminando em respostas no mínimo curiosas, como a de outro famoso youtuber teen que usou e abusou de sua arte performática para interpretar algo como uma grotesca espécie de boneco de posto de gasolina.

As críticas ao ídolo jovem parecem ter se concentrado em um deslize de pequena monta: ter atribuído ao hebraico um termo grego. O equívoco é compreensível: praticamente todo o Antigo Testamento foi composto originalmente em hebraico, como é bem sabido. Mas sua interpretação também não deixa de ser passível de crítica. Com efeito, ele afirmou que o termo malakói significaria originalmente devassos, e não homossexuais. Já comentei no próprio vídeo que a tradução literal de malakós (plural malakói) seria brando, mole, complacente, fraco (equivalente ao latim mollis), e em sentido pejorativo, delicado, desleixado, submisso, suscetível e também covarde ou efeminado, em alguns contextos (sigo o Léxico de Liddel & Scott). Mas isso não responde à pergunta: em que contexto o autointitulado apóstolo escreveu a palavra? Bem, se o leitor aceita minha contribuição, tudo indica que ele de fato se referisse aos homossexuais. Em poucas linhas: primeiro, porque a lista de pecadores em Coríntios 6,9-10 inclui, logo após de malakói, também arsenokôitai, tradicionalmente traduzida por sodomita, e que significa, literalmente, “aquele que se deita com homens”, do grego arsēn (genitivo ársenos), macho e kóitē, kóitos, o leito nupcial ou o ato de ir para a cama. A Nova Versão Internacional traduz os dois termos por “homossexuais passivos e ativos”, respectivamente. Segundo, porque a posição de Paulo acerca da homossexualidade é bem conhecida, basta ler, por exemplo, o que diz na Carta aos Romanos (Rm 1,26-27).

Mas que importância tem, afinal, o que queria dizer Paulo? Que importa sua opinião acerca dos homossexuais, se sua opinião acerca das mulheres é que elas deveriam permanecer caladas nas assembleias (1Cor 14,34) e se ele condescendia com a escravidão (Cl 3,22)? A despeito de ele ter sido o mais proeminente ideólogo do cristianismo, suas ideias estão obviamente obsoletas: não condizem com a sensibilidade contemporânea e afrontam os direitos humanos, além de nem sequer encontrarem amparo nas próprias palavras do seu líder espiritual. Que importa, pois, o que Paulo disse ou deixou de dizer? Essa sim é a questão que todos os cristãos de hoje deveriam se fazer.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Homem que gosta de mulher é coisa rara

Homem que gosta de mulher é coisa rara. Calma, não tô duvidando da sua masculinidade. O que eu quero dizer é que há uma grande diferença entre gostar de mulher e gostar de transar. De transar, quem não gosta? Nada de especial nisso. Já gostar de mulher é como apreciar um bom vinho. Antes de dar o primeiro gole, um apreciador lhe observa a coloração, a tonalidade, a viscosidade, o aroma; e ao sorvê-lo, não vai engolindo de uma vez, deixa-o rolar na boca para distinguir os componentes do seu buquê. É preciso conhecer as variedades das uvas, o lugar em que foram cultivadas, a safra, o processo de envelhecimento, enfim, conhecer a fundo a personalidade do vinho. Os homens comuns não possuem esse requinte: só querem encher a cara. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Espelho

Não acredite em você!


Meus amigos continuam me brindando com verdadeiras pérolas de sabedoria, e não resisto em compartilhar. Dessa vez foi um fotograma, de muito bom gosto, por sinal, no qual figura um gatinho olhando seu próprio reflexo em uma poça d’água, na qual se vê, porém, a silhueta de um tigre. Uma excelente metáfora para o excesso de autoconfiança, e por isso um alerta valioso e salutar. O gato se vê tigre, mas o observador vê a realidade: é apenas um filhote de gato doméstico com sonhos de grandeza O curioso é a mensagem que acompanha a postagem: “Acredite em você”. Das duas, uma: ou o autor da montagem achou que o gato era realmente um filhote de tigre, ou não entendeu patavina da imagem original. 

Alertei meu amigo, mas ele contra-argumentou que ambos os animais são felinos, como se isso significasse que um pudesse se transformar em outro. Tentei explicar isso em tom de brincadeira, lembrando que eu conheci um velhinho que teimava que rato virava morcego. Sem perder o gingado, meu amigo, que também não acredita na Evolução, repôs: “O Darwin”. Tenho que reconhecer que dessa ele escapou bem, pelo menos no quesito humor.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Até que o avião comece a cair

A bolsa eu não solto!

O ser humano é comunista até ficar rico, feminista até se casar e ateu até o avião começar a cair. Deparei-me com essa frase em uma rede social, e não pude deixar de ficar encantado com tamanho poder de síntese, já que há nela tanto bullshit que eu não conseguiria destrinchar em tão poucas palavras. Não é à toa que quem compartilhou a postagem viu nela sentidos inauditos, de alguma forma misteriosa relacionados com “lei da atração”, “força do pensamento” e congêneres. Não posso condená-lo, no entanto; é que a confusão é tão grande que no final das contas cada um pode enxergar ali tudo o que quiser ver. Mas como destrinchar texto é a minha área, deem-me licença.

Vou começar pelo fim, por ser uma afirmação que eu já me cansei de ver debatida e refutada. Ela é muito empregada por teístas quando lhes faltam argumentos, como se atacar a honestidade de um ateu fosse prova da existência de algum deus. Trata-se, obviamente, de um exemplo da falácia conhecida como argumento ad hominem, isto é, um ataque pessoal. Se em uma situação de desespero um ateu invoca algum deus, isso seria a prova, senão de que esse deus existe, ao menos de ninguém é “verdadeiramente” ateu (e aqui já vai embutido outro embuste, que é a chamada “falácia do escocês”), e que, portanto, “todo” ateu seria hipócrita (mais uma falácia, dessa vez a da generalização). Observem que até aqui já contamos três falácias, e só analisamos um terço da frase…

A afirmação passa ao largo de vários aspectos da realidade. Senão vejamos: primeiro, parte-se do pressuposto de que todo ateu deva ter o mesmo comportamento diante do mesmo tipo de situação, o que não passa de apenas mais uma crença infundada; segundo, admite-se implicitamente que o comportamento de uma pessoa em desespero seja mais racional do que o dessa mesma pessoa no pleno exercício de suas faculdades mentais (pelo menos se estiver tentando, com isso, validar o posicionamento teísta); e em terceiro lugar, não se questiona o motivo pelo qual tantos ateus podem efetivamente agir dessa maneira. E o motivo é bastante óbvio: todos nós somos doutrinados, ao longo da infância, para acreditarmos em dogmas de que só a muito custo vamos nos libertando com o exercício do pensamento crítico; assim, é natural esperar que o grupo dos que se denominam “ateus” seja composto por pessoas nos mais diferentes estágios de amadurecimento emocional e intelectual, e a maneira como cada qual pode reagir diante da iminência de uma fatalidade não depõe contra a coerência desta ou daquela concepção filosófica. Ora, o ateísmo não faz (e nem poderia fazer, nas condições dadas em nossa sociedade) o mesmo proselismo que as instituições religiosas fazem, e isso deveria ser um motivo adicional para duvidar da veracidade das doutrinas religiosas, e não o contrário. Em nossa sociedade, o ateu típico já foi religioso, e deixou de sê-lo por meio de um convencimento racional. Nem todo ateu, é claro, se enquadra nessa regra; são eles as exceções que a comprovam. No mais, no que diz respeito exclusivamente ao ataque pessoal, seria útil observar que ele vale tanto para o ateu quanto para a maioria dos religiosos, já que eles também costumam se lembrar do seu deus só quando a coisa aperta. Se isso, no caso do ateu, é um sinal de que eles “no fundo” acreditam em deus, então, no caso do religioso, deveria ser uma prova de que eles “no fundo” são todos ateus… além de igualmente hipócritas. Mas é claro que isso não é um argumento que um ateu inteligente vá usar contra qualquer ideologia teísta.

O ataque contra a hipocrisia parece ser a tônica da frase como um todo. Com efeito, ela soa como uma denúncia do egoísmo supostamente intrínseco do “ser humano” em geral, que estaria sempre lutando exclusivamente em interesse próprio. Assim, ele seria comunista enquanto fosse pobre, uma vez que, nessa situação, consideraria o comunismo vantajoso; já não assim quando viesse a enriquecer. Mais uma vez, isso não depõe contra a justiça ou a viabilidade deste ou daquele sistema econômico ou de governo; apenas diz respeito a uma atitude que se supõe típica do “ser humano”. Mas nem sequer isso é verídico, porque vemos por toda parte pessoas pobres que têm horror ao comunismo. Da mesma forma, há intelectuais de esquerda em situação financeira relativamente confortável, pelo menos em comparação com a classe trabalhadora, mas esses são taxados de “esquerda caviar”, como se isso automaticamente desqualificasse seus posicionamentos. Está, portanto, mais do que provado que o comportamento que se atribuiu ao “ser humano” foi uma generalização precipitada; nem todo pobre é comunista, como nem todo solteiro é feminista, assim como nem todo passageiro de avião é ateu; mas analisemos ainda a questão da hipocrisia que se nos imputa. Quer dizer que um pobre, ao se declarar comunista, não pode nunca estar sendo sincero, pois estaria apenas agindo em interesse próprio; mas tampouco o novo rico pode ser sincero ao abandonar essa ideologia, pois estaria agindo da mesma forma. É curioso, no entanto, que não se fale em outras ideologias, o que pode sugerir que o pobre que defende o capitalismo, esse sim seria sincero. Nesse caso, e seguindo a mesma “lógica”, o único comunista realmente sincero deveria ser… o “rico”! O que, pode-se presumir, não é bem o que o autor da frase pretendia dizer.

Agora vejamos o que se afirma sobre o feminismo, porque de todas as afirmações, é a que me parece mais estranha. O que será que se quis dizer com essa de “ser feminista até se casar”? Quer dizer então que todo feminista é necessariamente solteiro? Que estranho poder transformador seria esse o do casamento sobre a concepção de igualdade de gêneros? E, uma vez que se fala em “ser humano”, isso valeria tanto para o homem quanto para a mulher? Será que as próprias mulheres, uma vez casadas, incorporariam uma ideologia sexista e passariam a lutar contra os direitos da mulher, ou pelo menos deixariam de lutar por eles? Não sei bem o que pensar a esse respeito, porque todas as hipóteses me parecem igualmente absurdas. O mais provável é que o autor da frase tenha pensado do estreito ponto de vista de um homem sexista que não suporta mais seu casamento. Ou seria o de uma mulher queixando-se do seu marido? Não parece ser esse o tom. De qualquer maneira, não serei eu que irei defender essa instituição, e quem quer que seja o autor de tão intricado pensamento, deve ele ter bons motivos para estar saturado dela, e isso, de qualquer maneira, não tem nada a ver com o que eu entendo por feminismo. Pelo contrário, o pensamento feminista também nunca teve uma relação muito de boas com o casamento monogâmico.


Se, por fim, tomarmos a frase em sua totalidade como uma denúncia de uma suposta hipocrisia de todas as minorias citadas, o sentido seria o de que não existem comunistas sinceros, nem feministas sinceros, nem ateus sinceros. Alguém que defenda a equidade social e de gênero, bem como a inexistência de deus, só poderia estar mentindo, e só o faria se estivesse ganhando alguma coisa com isso, ou pelo menos não estivesse perdendo nada ao fazê-lo, o que já não aconteceria, por alguma lógica abstrusa, caso viesse a ficar rico, ou se casasse, ou estivesse na iminência da morte. Seria de extremo interesse para a Psicologia estudar um tal fenômeno de massa que tinha até agora passado completamente despercebido. Mas desconfio que o interessante mesmo seria estudar a cabeça de quem realmente acredita nisso.

Quanto a mim, vou continuando ateu, feminista e esquerdista. Pelo menos, não tenho a perspectiva de ficar rico, não tenho a intenção de me casar, e nem ando de avião.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sem saída

Há os que defendem o mandato sob o pretexto de defender a democracia. Há os que atacam a democracia sob o pretexto de atacar o mandato. Mas há quem ataque o mandato, mesmo sendo por isso forçado a atacar a democracia, e há quem defenda a democracia, mesmo sendo por isso forçado a defender o mandato. Só o que não há é como defender a democracia sem defender o mandato, nem como atacar o mandato sem atacar a democracia. Isso nós vamos ficar devendo por hoje. Volte sempre, e obrigado pela preferência.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

#pedaladas

Seria muito bom, além de inédito, se nossos parlamentares corruptos conseguissem aprovar o impedimento de uma figura pública por motivo de incompetência política. Se isso valer pra todo mundo, no Congresso só vai sobrar Eduardo Cunha.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Panelaço

A direita protesta contra a tomada, por parte de um governo de esquerda, das mesmas medidas que seriam tomadas pelo candidato da direita caso tivesse sido eleito. Não seria a esquerda que deveria estar protestando?

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Embate eleitoral

Digladiam-se no púlpito os nobres candidatos. O candidato A defende a tradição da ruptura, elenca as conquistas do seu governo e anuncia que pretende fazer muito mais. O candidato B toma a palavra e discorda veementemente, defendendo a ruptura da tradição e elencando os erros do governo do candidato A. O candidato C apregoa que essa polarização só atrasa o país, e defende uma nova política, em nítida ruptura com ambas as facções, prometendo priorizar as duas coisas. O coadjuvante D denuncia que os candidatos A, B e C não têm a coragem necessária para romper com o capital especulativo. O coadjuvante E denuncia que os candidatos A, B e C não têm a competência necessária para romper com o gigantismo do próprio Estado. O coadjuvante F não concorda nem discorda, muito pelo contrário. Pesquisa IBOPE aponta que o único a sair fortalecido do debate foi William Bonner. A margem de erro é de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.